Compreendida a noção de emoção, temos as seguintes emoções internas, porque o estímulo é interno, e respetivos sentimentos: dor-dolência, sede-sedento, fome-faminto, fadiga-fatigado e eliminação-aperto. As emoções externas, e respetivo sentimento, são as seguintes, possivelmente poderá haver mais: ação-alegre, alerta-ansioso, aversão-irritação, cuidado-compaixão, curiosidade-duvidoso, diversão-alegre, gratidão-agradecido, inação-triste, inveja-inconformado, medo-amedrontado, nojo-enojado, perda-triste, raiva-enraivecido, repreensão-culpa, surpresa-surpreso, triunfo-orgulho e sexo-excitação.

Considera-se que a diversão é uma modalidade da ação, e a perda uma modalidade da inação, pelo que partilham o mesmo sentimento, que, pela sua importância, se propõe essa separação.

Apresentamos um desenvolvimento de cada emoção:

Começamos pela dor. Esta é uma emoção que se manifesta, quando algo não está de acordo com o normal funcionamento do organismo, quer a nível interno, como uma dor numa víscera, ou uma dor que ocorra na parte exterior do organismo, como um ferimento. A dor é algo de bom, porque funciona como sinal de que algo não está bem e, de alguma forma, exige uma intervenção do próprio organismo e, sempre que seja possível, surge o autocuidado, ou, se em vida comunitária, a intervenção de outro organismo. Facilmente se depreende que ocorre um afastamento do que está, a nível externo, a provocar a dor e se depreende, também, que a dor funciona como educativa, evitando comportamentos idênticos. Decorrente desta emoção, o estado emocional pode ser dito de dor, no entanto, o sentimento dolente, donde decorre a dolência, parece ajustado, evitando o mesmo termo para a emoção e para o sentimento.

Tal como nas outras emoções, a dor é acompanhada por expressões corporais. Se não as conseguimos ver em nós próprios, as expressões faciais por exemplo, o seu propósito prende-se com a necessidade de comunicação, enquanto essas expressões corporais se convertem num estímulo para os outros, despertando nos outros uma emoção. Tal situação, a comunicação, só é possível quando uma expressão corporal é sempre idêntica, quando produzida pelo mesmo estímulo, garantindo a eficácia da comunicação.

Depois da dor, a fome e a sede. A forma de levar os animais à procura de alimento e de água deverá ocorrer por um estado de insatisfação impulsivo, a que podemos chamar de apetite ou desejo, com a respetiva manifestação externa ao nível das expressões corporais. De alguma forma, há uma motivação interna, um desejo ou apetite, o faminto e o sedento, e um impulso de comer e beber, algo que leve e motive o organismo à ação, à procura de alimento, garantindo a sobrevivência. As expressões corporais são essenciais, na medida que uma cria faminta desenvolve expressões corporais que indiquem à mãe que precisa de ser alimentada, e com a cria em deleite, a mãe sabe que o filhote está satisfeito pelas respetivas expressões corporais.

Outra emoção interna é a fadiga. O cansaço, que é natural depois do esforço, facilmente o compreendemos. Fatigado parece um bom termo para o sentimento que daí decorre.

A eliminação é outra emoção interna, cujo sentimento podemos apelar de apertado, recorrendo a gíria popular. Passando às emoções externas. A diversão decorre da situação de homeostase, no sentido de prolongar o bom humor e o contentamento por ela proporcionado, em que as expressões corporais da homeostasia são o estímulo à diversão. Brincar para as crias e para as crianças, no entanto, não é só divertimento, mas é, também, uma forma de desenvolver as suas capacidades motoras, predominantemente. O sentimento é o alegre. De alguma forma, a diversão é uma modalidade da ação, contextualizada no prolongamento do estado de homeostasia.

A emoção da ação é aquela que, após um estímulo, decorre uma motivação para que o organismo tome de forma mais facilitada determinados comportamentos proporcionados pelo estímulo. É a emoção facilitadora de comportamentos. O estado emocional da ação é alegrado ou alegre, ambos particípios passados do verbo alegrar, aquele regular, este irregular. O sentir-se alegre ou alegrado é um estado afetivo fortemente impulsionador, alterando a homeostasia e levando impulsivamente a um comportamento concreto. Tal como noutras emoções, perante um estímulo, como comprar um bem, o nosso comportamento pode ser involuntário, pois não tomamos consciência do impulso a que estamos submetidos, como pode decorrer um comportamento voluntário, ora consentindo com o sentimento, ou não seguindo o estado impulsivo.

Segue-se a emoção da inação, considerando-se a emoção que leva ao recolhimento, ficando com menor propensão para a ação. O estado emocional é a tristeza, que é o mais comum apontar-se, mas o correto é entristecido ou triste. A inação decorre de estímulos desagradáveis, como uma má notícia, ou a destruição de um valor.

A tristeza, enquanto a qualidade de triste ou entristecido, é um impulso para a inação, que leva à quebra da homeostasia biológica. De certa forma, a tristeza impede tudo o que motive a ação, como se houvesse uma ação inibitória a determinados comportamentos. Quando tristes há uma certa quietude, pouco propensos para a ação em concreto, predominando a reflexão. Há a tentativa de integrar o que não correu bem ou algo aconteceu de mau ou menos bom, de forma a não se repetir ou ter de mudar de comportamentos.

Segue-se a emoção da perda, que, de alguma forma, é uma modalidade específica da inação e pode entender-se como a quebra de uma relação afetiva, quando perdemos, por exemplo, um ente querido. O sentimento da perda é a tristeza, já que a perda também é uma forma de inação. Na verdade, a emoção da perda leva-nos à inação e, simultaneamente, perde-se a homeostasia biológica. Podemos dizer que o específico da perda é a quebra dos laços afetivos, proporcionados pelos estados emocionais existentes, mas esta quebra não se dá num momento só, leva o seu tempo.

A seguir temos o alerta, a emoção oriunda da indefinição, que se traduz na possibilidade de captar indícios de algo que poderá acontecer, mas ainda não aconteceu, normalmente, ligada a situações de perigos O sentimento que desperta é ansioso, que promove, simultaneamente, a incerteza e uma maior atenção, por requerer uma decisão rápida. Normalmente, em alerta, a tendência é ficar imóvel e a prestar atenção redobrada, de forma a entender o estímulo, por ser difuso. Se o perigo se confirmar, desperta uma nova emoção e respetivo comportamento. Se não se confirmar, há o regresso à normalidade, dando-se o alívio afetivo.

A curiosidade carateriza-se por algo que não é bem compreendido no estímulo, deixando o organismo em estado duvidoso, o que leva a querer decifrar o estímulo. Diferente do alerta, que envolve alguma espécie de perigo e a resposta tem de ser compreendia num espaço curto de tempo, a curiosidade leva a que a resposta não tenha essa caraterística de urgência.

A surpresa é outra emoção e pode acontecer por estímulos de duas ordens: quando há algo que é acrescentado inesperadamente no ambiente ou como algo que desaparece inesperadamente do ambiente. O sentimento da surpresa é surpreendido ou surpreso. Na perspetiva humana, podemos chamar surpresa a algo que aparece de forma extraordinária, ou o que não é esperado e aconteceu, ou algo que era esperado e não aconteceu, o que nos deixa surpresos

A emoção do trunfo também poderia ser chamada de orgulho, já que é esse o estado emocional que proporciona, orgulhoso. Esta emoção não é mais do que o animal sentir-se bem com a sua ação realizada, que, de alguma forma, poderia não acontecer, mas que para o animal foi relevante. Humanamente, entendemos a emoção do triunfo como uma conquista do próprio que é valorizada, admirada e às vezes adorada, por si e também pelos outros. No fundo, é reconhecer o valor de cada pessoa, dos seus feitos e conquistas, contribuindo para a sua autoestima e como motivação para continuar, e por isso sentimo-nos orgulhosos.

O medo é a emoção que leva à proteção do próprio, afastando-se do perigo, pela fuga, ou não se movimentando, se for a melhor forma de evitar o perigo. O sentimento ou estado afetivo é amedrontado, mas também poderia ser o medo. Da mesma forma que poderemos chamar a emoção do medo de emoção da proteção, já que é isso o que acontece nesta emoção. Mas o significante medo está bem enraizado.

A raiva está ligada à defesa do organismo, quando sente a sua vida ameaçada ou a sua integridade física, ou das suas crias, impondo um conjunto de ações, ditas agressivas ou violentas, bem como na proteção do território. Também poderíamos chamar a esta emoção de defesa em vez de raiva. Poderemos considerar o sentimento decorrente da raiva enraivecido, particípio passado do verbo enraivecer.

Uma outra emoção é a inveja. Por norma, na vida em grupo há um elemento que se destaca, o macho alfa, por exemplo. Sendo uma posição privilegiada, é normal que os outros machos tenham o desejo de querer o lugar daquele. Da mesma forma, nas fêmeas, a procura do estatuto mais elevado é um impulso. O querer um território já ocupado, entre os animais territoriais, desperta a emoção da inveja, assim como entre os humanos. Dado que a inveja é despertada por querer o poder ou a posição dominante, ou querer um território, e os comportamentos visam destituir o que está na posse da posição dominante, o sentimento que nos parece ajustado é inconformado. No ser humano, isso também acontece. Quem está no poder, seja qual for o poder, sempre é invejado e queremos ser nós a tê-lo, o que per si não é mau, gerando o inconformismo e o estado afetivo de inconformado.

Na medida em que os bens e as qualidades pessoais sejam uma forma de poder e sejam invejados, isso leva ao desejo de alcançar, pelo esforço, esses bens ou qualidades, desde que isso seja possível. No entanto há outros bens que são únicos, como uma tela de pintura, que nem sempre se pode adquirir por ser única.

A aversão decorre de um determinado comportamento da vida em grupo que não é ajustado. Para a mãe, por exemplo, a aversão é dada pelo comportamento desajustado da cria, que leva a ter determinadas expressões corporais, o que é suficiente para a cria entender essas expressões como uma repressão. O termo que me parece adequado a este estado afetivo é irritado, já que a aversão leva à irritação.

Tal como nos animais, a aversão nos humanos surge também pelos estímulos decorrentes de comportamentos desajustados e, para nós, desajustados eticamente, que levam a querer corrigir, ora pela repreensão oral, ora por punições ou pequenas agressões físicas. Quando admoestamos, a nossa irritação é apaziguada.

Alerta-se para alguma confusão com o particípio passado dos verbos que, por norma, atribuímos um sentimento ou emoção. Quando se é humilhado, por exemplo, faz despertar a emoção da aversão, porque o comportamento de humilhar é inadequado e o sentimento que te desperta é a irritação. Costuma-se dizer que nos sentimos humilhados quando, na verdade, nos sentimos irritados. Conotamos o sentimento com o tipo de comportamento do outro, quando somos objeto de uma ação. Acontece com todas as ações éticas não adequadas ou injustas. Assim, pela caraterística do comportamento ético realizado decorre um sentimento específico, tal como: humilhado, magoado, aborrecido, indignado, odiado, maltratado, ofuscado, desprezado, abandonado, diminuído, entre outros mais. Porém, no fundo, ficamos irritados em todas as situações, pelo que temos tendência a reagir de forma ativa ao comportamento inadequado do outro, que facilmente termina em violência, sobretudo entre os homens. Na verdade, na nossa gramática, existe o particípio passado dos verbos, que significa o estado que decorre, após a ação do verbo. Quem humilha, o outro é o objeto da ação, pelo particípio passado do verbo humilhar, fica humilhado. E tendemos a conotar o particípio passado dos verbos com sentimentos.

Também, quando falamos de atos eticamente corretos para quem sofre a ação, quando profundos, decorrem um conjunto de estados, dependendo da situação: respeitado, amado, elogiado, apoiado, compreendido, justificado, admirado, ajudado, valorizado, entre outros, cujo sentimento fundante é a gratidão, decorrente da emoção do cuidado.

Quando intensa, a irritação pode converter-se em indignação, ira, cólera, revolta, vingança, que não é mais do que a irritação intensa, num contexto humano concreto.

A repreensão decorre quando se é repreendido, após se gerar a aversão ao outro, sendo o sentimento a culpa. A culpa leva-nos a não querer repetir o ato que fizemos e a mudar de comportamento. Em certo sentido, o sentimento de culpa pode ser entendido de forma semelhante ao sentimento de tristeza, que nos impele para a inação, a inação do comportamento considerado um mal.

Seguidamente a emoção do cuidado, cujo sentimento que desperta é a compaixão. A dor provoca um conjunto de expressões corporais que desperta nos outros o impulso para o cuidar, derivado do estado emocional da compaixão, que é deixar-nos comover pelo que o outro está a sentir. Embora a compaixão se possa relacionar com o estado afetivo da dolência, no seu sentido etimológico relaciona-se com todos os estados afetivos. Por isso, a emoção do cuidado inclui, ainda, os cuidados de mãe ou o pai, na alimentação, na higiene e na segurança das suas crias. Ou decorrente de uma relação de amizade, em que envolve a perda e a tristeza, por exemplo, e nós cuidamos do amigo.

A pessoa cuidada vê nos cuidados prestados um estímulo e, consequentemente, uma nova emoção, a gratidão, que desperta o estado afetivo de grato ou agradecido, particípios passados do verbo agradecer, já que é essa ação revelada pelo comportamento. Notemos que agradecer tanto pode ser por palavras como por gestos, ou dando um presente.

Por fim, a emoção do sexo, a emoção que leva à perpetuação da espécie. É a diferenciação sexual, fêmea e macho, que permite o ato sexual, e este, por sua vez, leva ao nascimento de um ou mais seres, contribuindo para a perpetuação da espécie. Para que o ato sexual seja possível, esta relação entre eles é proporcionada pela emoção do sexo. O sentimento decorrente desta emoção é a excitação. A excitação, como sentimento, faz surgir, como noutras emoções, o desejo, neste caso, o desejo sexual. É uma emoção que ocorre nos dois seres e é vivida numa mútua relação, e que, diferentemente das outras emoções, o comportamento, a relação sexual, não é imediato, salvo raríssimas exceções entre os animais. O estímulo sexual é também, por isso, recíproco e leva ao que poderemos chamar um cerimonial ou ritual de acasalamento, ou mesmo romance, em que cada um exibe as suas qualidades, no sentido de levar o outro a tornar-se recetivo ao ato sexual. Há, por isso, um tempo que medeia a excitação até à recetividade do ato sexual. Na verdade, os rituais de acasalamento deverão ter uma função biológica, já que nada é supérfluo entre os animais.