As expressões corporais que imanam do processo emocional, resultante de um dinamismo racional, têm como função a comunicação, mormente dos estímulos e estados afetivos. Por exemplo, se nos ativermos às expressões faciais, que não conseguimos ver em nós próprios nem temos consciência que as possuímos, para que servirão, se não para comunicar com o grupo?
Interessa-nos, agora, as expressões sonoras decorrentes do processo emocional, donde, assim cremos, surge a linguagem humana, como forma de comunicação. Na verdade, os animais produzem sons e reagem aos sons, quando estes se convertem em estímulos para os outros, pelo que surge uma comunicação verbal. O que aconteceu também com os primatas humanos não conscientes.
Dadas as expressões corporais sonoras, surge, entre outras, a estrutura de um som se relacionar com uma imagem e uma imagem relacionar-se com um som, isto é, um som desperta uma imagem, e uma imagem leva à produção de um som. Quando um símio, por exemplo, vê um predador, despertando a emoção do medo, emite um som, e o companheiro, que não vê o perdedor, pelo som que ouve faz despertar nele a imagem do predador e, consequentemente, o respetivo comportamento, decorrente da emoção. O sistema nervoso central permitiu uma variedade destas estruturas e admite-se que os humanos começaram a desenvolver esta estrutura relacionando, por exemplo, um animal pelo som que emite, e esse som passou a ser referido ao animal.
Pensamos que é uma boa teoria fazer surgir a linguagem humana da estrutura emocional, sem que o humano seja consciente, ou tivesse desenvolvido a consciência, sendo suficiente a estrutura racional das emoções. Assim, teoricamente, com o evoluir da sociedade e da civilização, ao nível dos utensílios, por exemplo, primeiro utilizaram-se os objetos, como uma pedra, para um fim específico, e só depois foi nomeada. Mais tarde, sem sair da estrutura emocional não consciente, foram criados objetos a partir de outros objetos. Uma lança, por exemplo. A lança era constituída por uma pedra, um pau e, possivelmente, um fio. Mas estes significantes obedecem à estrutura som-imagem, pelo que não existia o termo lança. Este novo objeto, a lança, era nomeado pelos sons dos três objetos que a constituíam: pedrapaufio. Havia o objeto figo e o objeto árvore. Uma figueira seria figoarvore. Sem sair da estrutura emocional, começamos a ter a estrutura base da língua: o significante paupedrafio; o significado era o mesmo, o nome dos três objetos; e o referente, o objeto em si, com a sua função específica, cuja imagem era experimentada visualmente no sistema nervoso. O ser humano, nesta altura, seria exclusivamente prático e com os cinco sentidos bem apurados.
Com o evoluir desta estrutura, dada a dificuldade que a extensão dos nomes trazia, em vez dos nomes dos objetos, surgiu um outro nome, ou pela redução daquele ou por outro motivo, um novo som. Esta redução do nome veio introduzir uma separação entre o significante, mais curto, e o significado, constituído pelos sons dos elementos constitutivos do objeto, acrescido do referente, uma imagem, e da função que o objeto desempenhava.
Falando de função, é conveniente dizer-se que as pedras, quando foram utilizadas, e também construídas, não precisava de haver necessariamente a consciência, a experiência emocional seria suficiente. O que se quer ressaltar é o facto de que uma pedra se tornava mais eficaz do que outra, e por isso era escolhida, não pela compreensão consciente das suas caraterísticas, mas pelo esforço despendido. Para cortar um pedaço de carne, escolho uma pedra afiada, porque despendo menos esforço para cortar a carne, mas não por ser afiada. E distingo uma pedra afiada de outra não afiada pela visão. Isto resulta da experiência emocional não consciente.
O que nos parece relevante, porque diferente dos outros animais, assim julgamos, é que o humano chegou a diferenciação do significante e significado, apontando a um referente e beneficiavam da função do referente, pela imagem. Pode-se concluir que, sem necessidade de recurso à consciência como pressuposto, para o ser humano a lança, significante, traduzido num som, tem como significado o conjunto de sons dos objetos que a constituíam, e o referente lança enquanto objeto e a imagem da lança. Também para o ser humano, para matar um animal para comer, utilizava a lança que seria eficaz, e essa seria a sua função.
O que julgamos como certo é que a estrutura da linguagem humana decorre da razoabilidade das expressões sonoras emocionais e se foi constituindo a partir do significante, significado e referente, bem como pela função de cada objeto. A estrutura da língua, rudimentar, certamente, bem como a sua eficácia, era garantida pela racionalidade emocional.