O aparecimento da consciência, enquanto saber e saber que sei, surge, na nossa perspetiva, da possibilidade de reconhecer a articulação linguística entre o significante e o significado, e vice-versa, relacionando o som com uma imagem, o referente, e reconhecer a função do referente. Reconhecer é um verbo que requer a consciência, porque é um conhecer pela segunda vez.

Temos de ter claro que a linguagem humana começou por ser algo simples, tal como hoje existe entre os animais. Teve uma evolução, e essa evolução levou-nos aos significantes, significados e referentes, sem que necessariamente houvesse consciência.

A consciência, definida como um saber e um saber que sei, ou sinto e sei que estou a sentir, existo e sei que existo e outras coisas mais, enquanto objeto de conhecimento é algo complexo, sobretudo a nível metodológico, pois é sempre uma experiência pessoal.

Entende-se, no entanto, que a consciência só possível pelo aparecimento da linguagem humana, na medida que podemos articular significante, significado e referente. Na verdade, temos duas formas de conhecimento: por um lado o significante, e por outro o significado, e ambos se relacionam com o mesmo referente.

De forma a argumentar que a consciência se faz a partir da linguagem, partimos de duas situações da nossa experiência concreta. Quando olho para uma paisagem, pela visão, vejo a paisagem, mas este ver não é consciente, porque não identifico os objetos que a constituem, apenas os vejo. Ver, e isto parece-me relevante, é deixar simplesmente a luz entrar pelos olhos e ter a experiência visual. Porém, só tomo consciência de um objeto (vejo o objeto e sei que o estou a ver), nessa paisagem, quando pronuncio o nome do objeto e, quando o pronuncio, torna-se consciente. Assim, só tomo consciência da realidade quando pronuncio essa mesma realidade, seja um objeto ou uma ação. O que nos permite dizer que sem a linguagem, a consciência não se torna possível.

Da mesma forma, quando lemos um livro, eu posso olhar para uma página e ver apenas uma realidade proporcionada pela visão, e torno apenas consciente as palavras quando as pronuncio. Na verdade, quando olho para a página de um livro, parece que automaticamente leio. Mas, se fizermos um esforço, conseguimos ver esta realidade. E posso ler pela voz interior, que não é mais que a experiência do som proporcionada pelo sistema nervoso central, a partir da visualização das letras, apreendido o código linguístico, ou em voz alta, emitindo um som. E este ler, seja por voz interior ou expressa, é consciente.

Desta forma, a realidade apenas se torna consciente pela pronúncia das palavras, tendo-se desenvolvido, assim parece, uma nova estrutura específica do sistema nervoso, enquanto capaz de articular significantes, significados e referentes, pois só tomo consciência quando pronuncio os significantes, que me remete para o significado e referente, havendo por isso um duplo conhecimento, significante e significado, que nos remete para a consciência enquanto saber e saber que sei.

Posso concluir que enquanto o sistema nervoso processa a resposta a um estímulo e desencadeia o restante processo emocional, é sempre emocional não consciente, mas quando o sistema nervoso, na mesma situação, opera pela articulação dos sons inerentes às palavras, os significantes, respetivos significados e a relação com o referente tornam possível o conhecimento emocional consciente, ou ser um ato consciente, no humano.

Não sabemos quando o ser humano se tornou consciente, independente do "homo" que o antecedeu, bem como outros "homos" poderiam ser conscientes, porém, quando o ser humano se pôde debruçar sobre o conhecimento, isto é, quando o ato de conhecer teve como objeto o próprio conhecimento, ora na compreensão da gramática da língua, ora na compreensão dos princípios lógicos do conhecimento, parece não haver dúvidas que já é consciente. Isto é, o homem falava e só depois reconheceu as regras da gramática. O ser humano pensava e, depois, debruçou-se como se estrutura o pensamento, os métodos e a lógica, sempre a partir da experiência sonora. Quando o homem, ou uma sociedade em concreto, desenvolveu estas capacidades, podemos dizer, sem dúvida, que eram conscientes, porque conhece e sabe que conhece, porque teve o conhecimento como objeto do próprio conhecimento. E ter por objeto do conhecimento o próprio conhecimento é já um (re)conhecer ou um (re)conhecimento.

Podemos concluir que, quando pensamos pelos sons, operacionalizamos ao nível do sistema nervoso central, isto é, quando penso pela voz interior estou a operacionalizar o sistema nervoso e controlo parte dele. Por isso, todo o ato de pensar e todo o conhecimento é emocional, mas a uma dada altura da evolução humana, o ato de pensar faz-se de forma consciente pelas palavras, pela articulação sonora dos significantes e significados e a sua relação com o referente.