Dado o processo emocional, e aqui radica a diferença entre humanos e animais, no momento da intervenção do sistema nervoso em enviar os neurónios motores para determinar o comportamento, fica em suspenso, porque temos a possibilidade de escolher um outro comportamento que não o universal proporcionado pelo estado afetivo. Pela emoção da ação, por exemplo, a alegria move-me a adquirir um determinado objeto. Porém, posso não seguir esse movimento. Uma pessoa agride-me, mas posso, apesar do sentimento enraivecido, não tomar qualquer atitude agressiva e defensiva. Poderemos chamar a isso a liberdade: liberdade enquanto capacidade para suspender o impulso do estado afetivo ou sentimento e decidir, com a compreensão consciente, entre as várias opções, a que julgamos melhor, sem que necessariamente siga o impulso afetivo. Consentir com o estado afetivo também é um ato de liberdade. Outras vezes, apesar da consciência e liberdade, não conseguimos evitar o comportamento exigido pelo estado afetivo, o que torna os nossos atos involuntários.

Voltando ao dinamismo da emoção, estimulo-reação do sistema nervoso-estado afetivo-expressões corporais-comportamento, este acontece no humano como em qualquer outro animal, em que o comportamento é não voluntário. Noutras situações, dada a capacidade da consciência e da liberdade humana, no humano, iniciado o processo emoção, que é não consciente, consegue-se suster o comportamento, pela intervenção da consciência e liberdade, tornando consciente o estímulo, o estado afetivo, e desta compreensão, tomarmos a decisão de qual comportamento escolher, surgindo assim a ética.

Neste sentido, a ética só se compreende nesta estrutura emocional. Convém referir que nenhuma emoção resulta do conhecimento consciente, mas sempre do conhecimento emocional não consciente. A compreensão consciente ocorre depois de iniciada a emoção.

Daqui infere-se que, pela consciência e liberdade, após o processo emocional, quando se trata do comportamento, teremos de tomar obrigatoriamente uma decisão, já que não somos livres para o não fazer: perante um estímulo, dado o processo do sistema nervoso, tem de ser dada necessariamente uma resposta, traduzida num comportamento, ainda que esse comportamento seja uma inação.

Desta realidade, define-se dever como a obrigatoriedade de tomar uma decisão livre, ao qual poderemos chamar de dever fundamental, que, depois, se concretiza num determinado comportamento, ao qual podemos definir como dever concreto.

Dando um passo mais, a escolha do dever concreto deve obedecer ao princípio ético fundamental: o bem é a fazer e o mal é a evitar. Este princípio vale por si mesmo, pois, se fosse indiferente fazer o bem ou o mal, a ética não faria qualquer sentido. Este princípio não define, por si, qual o dever concreto a realizar, apenas refere que, seja qual for o dever concreto, tem de ser o bem. Esta definição do dever concreto far-se-á pela reflexão pessoal, segundo o conhecimento de cada um. Com isto poderemos chegar a uma definição da ética: a obrigatoriedade de agir livremente, apelando ao bem.

Quando agimos mal, quando a nossa ação não é correta, porque não faço o bem decorrente da reflexão, segundo o conhecimento que em mim tenho disponível, surge a censura interna, proporcionada pela consciência ética. De forma simples, poderemos dizer que esta censura, não é mais que uma repressão não consciente, por não seguir a honestidade do conhecimento emocional, pois o conhecimento emocional é verdadeiro e honesto. Quando agimos bem, sentimo-nos justificados, quando agimos mal, surge a censura do conhecimento emocional, despertando a culpa.

No humano, todo o conhecimento é emocional e racional, algum do qual se torna consciente e, quando somos estimulados, o primeiro conhecimento utilizado pelo sistema nervoso é emocional não consciente e só na fase de decidir qual o comportamento, sustendo o impulso afetivo, fazemo-lo consciente e livremente, razão pela qual no humano surjam comportamentos voluntários e comportamentos involuntários, em ordem à sua sobrevivência e perpetuação da espécie, alicerçados na comunicação emocional.