Desde que o ser humano desenvolva a consciência e a liberdade, ou a liberdade e a consciência, porque são simultâneas, a ética é uma necessidade, e, tal como as emoções, é uma estrutura essencial e fundamental do ser humano. Não somos livres de escolher a nossa estrutura emocional, nem a nossa dimensão ética, que decorre da nossa própria natureza humana. A ética, tal como as emoções, é essencial e estruturante em nós.
Na hora de escolher um comportamento concreto, temos de seguir o princípio ético: o bem é a fazer e o mal é a evitar. Os deveres concretos são aqueles deveres que realizam o bem ou que evitam o mal, porque não temos a liberdade ética de fazer o mal, por ação ou omissão. Há, no entanto, um conjunto de ações éticas que são o bem, mas não tenho necessariamente de as realizar a todas, não se tornam obrigatórias. Só se tornam obrigatórias, quando, a sua não realização advém algum mal.
Saber o que é bem e o que é mal em concreto só é possível pela reflexão. E nós fomos aprendendo os nossos deveres, bem como as normas que traduzem os deveres concretos, ao longo da vida, desde crianças, na família, na escola, em contacto com a sociedade, pelo nosso estudo e, na adolescência, pela consciência, começamos a compreender o fundamento das normas. Na verdade, não podemos ter conhecimentos consciente do que não conhecemos emocionalmente.
Com isso entramos na área da ética que pretende fundamentar as ações humanas corretas e daí chegar às normas. Tal como vimos, as emoções foram o ponto de partida, donde chegámos à ética, e é dessa estrutura que a ética deve ser desenvolvida, acrescentando que cada um de nós é um ser individual e social simultaneamente. Só há humanidade na sociabilidade!
Aborda-se o valor da vida, ou melhor, o viver, que decorre de uma maneira de existir do ser humano, como qualquer outro animal, em sentido biológico e, como vimos, as emoções são a estrutura que permite manter a vida, sendo o seu contrário a morte. Sempre que esteja em causa este valor, por uma determinada emoção e respetivo estado afetivo, sou movido, quando tenho de decidir um comportamento, a promover a vida e faz surgir em mim o dever concreto de a promover, ou, simplesmente, o dever de viver. É por este dever, que é ético, e por metonímia, enquanto recurso linguístico literário, que a minha vida, que é intrinsecamente biológica, é apelidado de valor ético.
Na verdade, estamos habituados a atribuir ao valor da vida a qualidade de ético, ou falar de valores éticos, porém, apenas há um valor ético: a verdade e os seus correlatos (honestidade, fidelidade, lealdade…) que, tal como o princípio ético, a verdade tem valor por si mesma, pois se fosse indiferente a verdade ou a mentira, estas não fariam sentido.
A vida é intrinsecamente um valor biológico, mas não é um valor intrinsecamente ético. Porém, pelo dever que eu tenho de viver, e este dever decorre da ética, transfiro, pela metonímia, o termo ético para a vida. Neste caso, a metonímia significa que atribuo qualidade da minha decisão, que é ética, porque se funda na consciência e na liberdade, para o valor que é realizado, a vida.
Além das emoções e respetivos estados afetivos que apelam à vida, também pela minha capacidade de valorar de forma consciente a realidade, sei que é preferível viver a não viver, ainda que seja pelo muito que não sabemos sobre a morte. É desta dupla fundamentação, emocional e consciente, que surge em mim o dever de promover a vida, ou, simplesmente, o dever de viver, que se concretiza nos comportamentos concretos.
O dever fundamental apenas nos diz que eu tenho a obrigatoriedade de tomar uma decisão livre em ordem ao bem e este dever é comum a todas as emoções. Quando se trata de um estímulo específico, em que o valor da vida está em causa, o meu dever concreto, por um lado, materializa ou concretiza este dever geral, já que estou a tomar obrigatoriamente uma decisão, e, por outro, o dever concreto é o que eu tenho de fazer de forma obrigatória para realizar o valor da vida, já que esse é um valor a promover. Esta obrigatoriedade específica do dever concreto decorre do princípio ético.
Como vivemos em sociedade, o outro, pelos mesmos motivos que eu, tem igualmente o dever de viver. E como o outro tem o dever de viver, eu devo respeitar nele esse dever, não atentando contra a sua vida. O outro tem o mesmo dever para comigo, porque também eu tenho o dever de viver. Se o outro não tivesse o dever de viver, de respeitar a sua própria vida, por que razão eu teria o dever de a respeitar? Isso acontece com todos os valores. No caso da vida, o que faz surgir em mim os meus deveres para com o outro é o facto do outro ter, tal como eu, um dever, no caso, um dever de viver. Eu só tenho deveres para com o outro, relativamente a um valor, se primeiro eu e o outro tivermos deveres para com esse mesmo valor. Isto é: eu tenho o dever de viver, por isso, já tenho deveres para com o valor da vida. Por essa razão, tenho de respeitar o valor da vida do outro e ele também tem esse dever de igual forma.
Esta fundamentação tem de ser bem compreendida, para evitarmos um círculo vicioso, que é dizer que vida é um valor ético e, por isso, exige que seja respeitada enquanto tal, exigência que se traduz em impor ou determinar comportamentos concretos às pessoas. Se eu disser isto, tenho como pressuposto, ou fundamento, que os deveres que eu tenho perante a vida do outro decorrem de a vida ser um valor ético. O círculo vicioso é claro: a vida como valor ético exige ou fundamenta a exigência de determinados comportamentos, e a exigência de ter determinados comportamentos fundamenta-se na vida por ser um valor ético. Para evitar o círculo vicioso, porque não se adequa à realidade, tenho de ter presente que esta passagem da vida enquanto valor biológico à vida enquanto valor ético não é uma passagem que se fundamenta numa realidade ou caraterística intrínseca decorrente da vida biológica, como vimos, a vida como valor ético é uma metonímia.
Desta constatação, o outro apenas me pode apelar que eu cumpra os meus deveres para com ele, porque os deveres para com ele já estão definidos ou já fundamentados em mim, pelo meu dever de viver e o dever de respeitar o dever do outro. Dito de outra forma, a vida do outro como valor, não cria em mim deveres, porque eu já os tenho, logo não é adequado que o outro me possa exigir seja o que for, já que sou eu a fonte da minha obrigação. O que o outro me pode fazer é apelar a que cumpra os meus deveres. É esta constatação que permite fundamentar a igualdade entre todos os seres humanos e, no fundo, a dignidade humana.
Na verdade, a vida é o valor que sustenta todos os outros, e sem a vida biológica não existiríamos. E é desta constatação que o respeito pela vida do outro, ou o respeitar, é assumir esta realidade, no caso concreto da vida enquanto valor biológico, como a verdade inerente à realidade do outro e da minha também. O fundamento último do dever, ou do respeito, é a verdade inerente à realidade que me é apresentada, pelo que eu sou verdadeiro quando respeito o dever do outro, tal como o outro deve respeitar o meu dever, por ser essa a verdade. Se não fosse verdade que eu tivesse o dever de viver, não poderia fundamentar a vida como valor a realizar.
Este dever de viver realiza-se por ações concretas, ou deveres concretos, nomeadamente os comportamentos, que podem ser de duas ordens: aquelas ações que visam destruir a vida, minha e do outro, como o matar ou as agressões físicas, pelo que não devem ser realizadas, e surge a norma ética não matar ou não agredir, pelo que se impõe universalmente a todos como obrigatórias; e aqueles deveres que promovem a vida do outro, mas não são todos obrigatórios. Dar de beber a outra pessoa pode ser um dever universal obrigatório, assim como pedir o socorro quando me deparo com um acidente, mas dar uma esmola pecuniária de grande valor a um necessitado não tem carácter universal obrigatório. Como referimos tudo o que devemos fazer tem de ser o bem, mas nem todo o bem é obrigatório. Da forma como fundamentamos o valor da vida, fundamentamos os outros valores, os quais temos o dever de promover e promover na sociabilidade.